A biodiversidade brasileira guarda um patrimônio de conhecimentos construído ao longo de gerações. Entre esses saberes está o uso tradicional de inúmeras espécies de plantas para fins medicinais, conhecimento que vem sendo transmitido por povos originários e comunidades tradicionais.
Com o objetivo de reunir e valorizar essas informações, a Fiocruz disponibilizou um banco de dados dedicado às plantas medicinais, reunindo referências bibliográficas relacionadas ao uso tradicional dessas espécies.
Conhecimento tradicional e ciência
O banco de dados foi desenvolvido a partir do trabalho da Coleção Botânica de Plantas Medicinais (CBPM), vinculada ao Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz).
A proposta é aproximar o conhecimento tradicional da pesquisa científica, organizando informações que podem servir de ponto de partida para novos estudos sobre a biodiversidade brasileira e suas possíveis aplicações.
Esse tipo de iniciativa também contribui para dar visibilidade ao conhecimento produzido e preservado por comunidades que, durante séculos, observaram, utilizaram e transmitiram informações sobre as plantas encontradas em seus territórios.
Uma ferramenta para pesquisadores e profissionais
As informações reunidas podem ser úteis para pesquisadores, profissionais que trabalham com produtos naturais, instituições de pesquisa e outros setores interessados no estudo de plantas medicinais.
O levantamento bibliográfico pode ajudar, por exemplo, na identificação de espécies que possuem registros de uso tradicional e que podem ser objeto de novas pesquisas.
É importante destacar, porém, que o registro do uso tradicional de uma planta não significa que seu uso medicinal esteja cientificamente comprovado para determinada condição de saúde. Informações encontradas em bancos de dados e na internet não substituem orientação de profissionais habilitados.
Biodiversidade brasileira como patrimônio
O Brasil possui uma das maiores diversidades de espécies vegetais do planeta. Muitas delas fazem parte da cultura e dos conhecimentos de diferentes comunidades.
Apesar dessa riqueza, o número de espécies presentes em listas oficiais de plantas medicinais é muito menor do que a diversidade registrada em levantamentos etnobotânicos.
Por isso, pesquisas que documentam esses conhecimentos podem contribuir para ampliar o entendimento sobre a biodiversidade e estimular novos estudos.
A proposta da Fiocruz também está relacionada à valorização do conhecimento tradicional e à discussão sobre a repartição de benefícios com as comunidades provedoras desses conhecimentos, um aspecto importante quando recursos da biodiversidade e saberes tradicionais são utilizados em pesquisas e no desenvolvimento de produtos.
Um banco de dados em constante atualização
O trabalho de catalogação não é necessariamente estático. À medida que novas espécies são incorporadas à coleção botânica, novas informações bibliográficas podem ser pesquisadas e acrescentadas.
Na divulgação original da iniciativa, o banco reunia cerca de 300 espécies, e as consultas podiam ser realizadas utilizando diferentes critérios, como nome popular, nome científico ou família botânica.
Essa possibilidade facilita a pesquisa e permite que diferentes públicos encontrem informações sobre espécies conhecidas regionalmente por nomes populares distintos.
Por que preservar esse conhecimento?
Conhecer as plantas utilizadas tradicionalmente por diferentes comunidades vai além da possibilidade de descobrir novos recursos para a pesquisa.
É também uma forma de reconhecer que a biodiversidade e a cultura estão profundamente relacionadas.
Quando uma espécie vegetal desaparece, pode desaparecer junto parte do conhecimento associado a ela. Da mesma maneira, quando os saberes tradicionais são ignorados ou não são devidamente registrados e valorizados, perde-se uma parcela importante da memória cultural.
A documentação científica pode, portanto, contribuir para aproximar biodiversidade, ciência, cultura e sustentabilidade.
Onde consultar?
O banco de dados da Coleção Botânica de Plantas Medicinais da Fiocruz foi criado justamente para facilitar o acesso às informações bibliográficas sobre espécies medicinais e seus usos tradicionais.
Antes de utilizar qualquer planta com finalidade terapêutica, entretanto, é fundamental buscar orientação de um profissional qualificado. O fato de uma planta possuir histórico de uso tradicional não garante que ela seja segura para todas as pessoas ou situações.
Biodiversidade também é conhecimento
A preservação ambiental não envolve apenas proteger florestas, rios e espécies. Preservar a biodiversidade também significa reconhecer os conhecimentos construídos pelas comunidades que convivem com esses ambientes há gerações.
Iniciativas de pesquisa e documentação, como a da Fiocruz, mostram como ciência e conhecimento tradicional podem contribuir para ampliar o conhecimento sobre a riqueza vegetal brasileira, ao mesmo tempo em que reforçam a importância de preservar tanto a natureza quanto os saberes associados a ela.
Por: Celina Lago




